MACHADO DE ASSIS

Machado de Assis é encruzilhada. Borbulha de sentidos. Jogador de xadrez que só apresentava xeque-mate. Envolvente aranha, tecelão de teias firmes disfarçadas na delicadeza. Observador dos mapas e timbres dos gestos humanos. Nenhum personagem seu presta e ao mesmo tempo todos são labirintos, deslizando entre suas razões e pressões para escaparem dos tombos ou manterem-se no prumo. 

Embranquecido pela história oficial brasileira, Machado foi moleque no Morro do Livramento. Entregador pelas ruas do Rio imperial quando pivete, aprendiz de tipografia e edição com o grande Paula Britto (primeiro editor do Brasil, preto), depois funcionário público atuante pela efetivação de leis favoráveis a escravizados e libertos. Seus contos viciam e seus romances tocam no pus, no doce e nas contradições da gente. Para compreendermos a sociedade brasileira, suas navalhas e favores, suas estruturas urbanas, tentações e muralhas, a caneta de Machado de Assis ressoa. Usou e abusou da malícia em seu texto liso, por não poder bater de frente com os barões. Na imprensa da época, este preto ‘mulato’, acostumado desde pequeno a circular pelas beiradas da elite carioca, desfiava sua ironia e questionava com finíssimo trato a mediocridade da elite da época e seus agregados. O ‘Bruxo do Cosme Velho’ tirava onda desenrolando suas histórias e escorria lentamente o seu barato pelos parágrafos de seus romances. Demonstrava a hipocrisia e as molduras fortes do nosso vampirismo social. Mesclava sua crítica fina às estruturas políticas com o surfe pelo espírito e pelos desejos humanos. Gingador e detalhista, soltava as pérolas à compreensão livre dos seus leitores, nunca julgando seus personagens mesmo que dessem mancadas nítidas e brabas. Fez percebermos como um traço cotidiano condensa uma imensidão de vontades e proibições. E como num trejeito, num olhar ou numa reticência cabe um tabuleiro de rancores, sonhos e loucuras.

*Texto por Allan da Rosa

 

"Machado de Assis é encruzilhada"